Fotografia por Scott Webb, no Pexels
Ocupei o lugar de prima mais nova durante muitos anos. Somos uma família numerosa e o meu papel de bijuzinho, única menina num mar de testosterona, enchia-me as medidas . A certa altura, como quem não quer a coisa, passos pequeninos infestaram os eventos familiares e o papel de prima mais velha (para um grupo de três pestinhas) começou a instalar-se no meu coração.
Sempre tive paciência para eles, para correr, para brincar, descalçar as botas de salto alto e andar descalça no parque infantil... Encho-os de mimos, tal como eles me fazem a mim e detesto passar muito tempo afastada.
Este meu papel tem os seus senãos: conversas sobre temas para além das Winks e da Patrulha Pata tornam-se complicadas, comer quando eles já acabaram sem gritos e puxões impossível e há aqueles dias em que tenho de fazer cara feia e dizer não à brincadeira que vai, decerto, acabar em lamuria.
Estava a comer e eles, como sempre, impacientes para que acabasse. Nos meus melhores dias não conseguiria imaginar o que veio a seguir.
"Temos de aproveitar enquanto ainda brincas connosco. Estás a ficar crescida e vais deixar de querer saber de nós."
Escusado será dizer que ouvir isto me partiu o coração.
Já mais velha, a minha prima ouve-me a falar da faculdade, de planos para viajar e de coisas que, por mais que se esforce, ainda não consegue compreender. Ainda bem que não, deixem-nos guardar a inocência deles enquanto o devem fazer. Para além do mais, têm à sua volta os 'inimigos', os mais crescidos, os adultos, que não lhes dão tanta atenção nas festas e almoços. Estaria eu, aos olhos deles, a tornar-me numa dessas criaturas?
Todos temos uma criança dentro nós. Genuína, brincalhona e despreocupada, enterrada no meio das preocupações do dia-a-dia. É compreensível. O mundo dos adultos tem pouco espaço para deixar essa alegria vencer, mas eles não vêm isso dessa maneira.
Eu estou a crescer, é a realidade. Para bem ou para mal, não consigo parar do fazer.
Ajoelhei-me perante eles, de forma a que não vissem mais uma "grande" mas sim um igual e tentei explicar que sim, estou a crescer, que vou ficar tão "grande" como toda a gente mas que, de maneira nenhuma, iria deixar de querer saber deles. Vou continuar a brincar, vou continuar a sorrir e a tentar que eles tragam a minha infantilidade à superfície.
Eles fazem com que me lembre das pequenas coisas, que tanto os fascinam mas que, para mim, já são tão normais. Às vezes torna-se chato brincar uma e outra vez às escondidas. No entanto, nada me deixa mais feliz que ver um sorriso nas caras deles.
Acompanhar os crescimento dos meus primos (e fazer parte dele), tal como o resto da minha família acompanha o meu, é recompensador. Ouvir a minha prima dizer que quer que lhe mostre os filmes da Marvel deixa-me em pulgas, mostrar-lhe Oasis e receber um feedback positivos faz-me delirar, ouvi-los dizer que acham piada ao aparelho, que a minha t-shirt dos Iron Maiden é esquisita e que querem que eu lhes conte tal história outra vez, faz com que esboce o maior dos sorrisos.
Ao ouvir o que ouvi, apercebi-me o impacto que tenho na vida dos pigmeus que tanto adoro. Fiquei nostálgica. Também eles estão a crescer sem sequer se aperceberem. Comecei mais valor à visão que eles têm no mundo, tão crua e mutável como a que outrora eu mesma tive.